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Hoje venho aqui falar de mim

por Zzzzz, em 17.09.16

 Eu. Se me dão licença, hoje quero falar de mim. Não me considero importante, mas tenho as minhas importâncias. A sensação que tenho de mim, deste de quem quero aqui falar, é de que os outros não me chegam aos calcanhares. Não é que os considere inferiores, mas cada um deve saber e tratar da sua vidinha conforme pode, e eu cá achei uma maneira muito peculiar de tratar da minha.

Há coisas que me foram postas no berço, das quais não tenho culpa nenhuma e pelas quais nada fiz, mas que também nunca precisei. Desde o nascimento que sou um indivíduo dotado de talentos. Na escola as minhas grandes qualidades logo se revelaram e os meus bons professores só tiveram que as estimular. Embora soubessem do sangue que me corria nas veias, nunca lhe ligaram pevide, preferindo concentrar-se nos meus méritos inatos. Um gesto de grande nobreza.

Apostei numa formação universitária completamente alheia à ciência paterna. Ardia em mim mostrar o que valia e mostrei-o com uma perna às costas. Abracei uma profissão que me permitiu comer à mesa com a fina flor da sociedade. O que ela me dava, eu retribuia-lhe a dobrar. A minha natureza generosa, tornava a nata social ainda mais genuína. Entre elites uma mão lava a outra. A fama e o bom nome dos homens de sucesso, ao passarem pelo meu teclado, faziam-me cada vez maior. Imparável, apercebia-me a crescer muito para além de mim. Os espelhos onde me olhava só não se estilhaçavam porque eu sempre tive o cuidado de me afastar a tempo.

Sei que os tempos não estão para brincadeiras e sempre me avisaram que a política é um espaço de ingratidões. Uma seca, eu que o diga. Há ofensas que não mereço, que considero intoleráveis. Sinto os meus valores eternos a serem vilipendiados. Eu, filho do meu pai, com uma carreira profissional que se pode ver, a ser ignorado? Eles mal sabem o que eu sei, o que vi e lhes ouvi!

Ofenderam-me. Recuso-me a ser uma pessoa normal que fez o seu trabalho. Olho para a sociedade e não a consigo imaginar sem mim. Tenho imenso para lhe dar mas não me deixam. Abrirei um novo caminho. Com o meu livro „Eu E Os Podres Deles“ vou dar início à minha segunda vida. Uma garra destas não se dobra assim!

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As mulheres que o digam, um amor destes é insuportável. Depois de cada declaração de amor assim, o melhor que podemos fazer é ir tomar um duche e vestir roupa lavada. Ficamos transpirados, peganhentos, com odores capazes de espantar um cão. Amam-nos com uma intensidade que só podemos ficar com complexos de culpa por não os servir melhor.

Cobrem-nos de prémios com a voracidade e facilidade com que cobrimos o país de autoestradas e passadiços. Destacam-nos para os cargos mais elevados nos olimpos financeiros com o mesmo empenho com que compramos automóveis alemães. Já nos impingiram tantas ajudas e subsídios que ficamos sem saber onde obter créditos para lhes cobrir os juros. Se um dono atestasse o seu burro assim de cenouras, só lhe ficava mesmo o chicote para o fazer andar.

Temos as melhores praias, temos as melhores ilhas, temos os melhores passadiços. Temos o melhor vinho, o melhor azeite, os melhores sapatos, os melhores hotéis. Com tantas qualidades, tantos predicados, tantos superlativos, a nossa indiferença desespera qualquer investidor. Lambuzam-nos e nós, nicles, ficamos impassíveis como se a corrupção dos mercados nada tivesse a ver connosco. Temos que ser mais eficientes na nossa destruição. Se o turista é a isca porque continuamos a olhar para o anzol?

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Pequenas alegrias na nora dos dias

por Zzzzz, em 02.09.16

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Por vezes a vida também é isto. Uma recordação onde o futuro mergulha a regenerar-se para novas aventuras. Um pequeno prazer que se manifesta em algo que antes nos passou despercebido. Uma surpresa na descoberta de uma nova dimensão na nora dos dias.

Passeamos na floresta e não vemos a árvore. Vamos de um lado para o outro e ignoramos o movimento. Escrevemos e esquecemos a mão. Exigimos a felicidade no vazio de uma vida interior. Desejamos viver evitando o esforço e o desafio.

Há a vida que nos transporta e a vida que fazemos. Há o que nos apontam como belo e, sem mais, acenamos que sim. Na sugestão da utilidade há apenas a fugacidade da surpresa. Foi-se esta, fica-nos aquela, acabando perdida por aí.

Eu. Ontem fui à floresta, pisei o chão por onde andam as raízes das árvores, abracei uma. Ficou imóvel, silenciosa, cheia de si. Notou-me. Se algo me segredou nada retive. Há uma linguagem de vida profunda nas árvores que nenhuma abraço pode desvendar. Naquela imobilidade, naquele silêncio e naquela plenitude há uma autoridade que sigo cego.

No caminho de regresso em cima da bicicleta senti o vento, o momento, o movimento. Quando os quis abraçar já tinham fugido de mim. Havia neles uma inquietude desconhecida que me pôs de bem comigo. O que me deixaram na passagem fez de mim outro. Sorrio na alegria da mudança, grato por me saber a viver.

Em casa escrevo estas notas primeiro com uma caneta. Os velhos instrumentos sempre souberam arrebatar ao pensamento encantos ocultos. Há uma cumplicidade da mão com o cérebro que só velhas ferramentas sabem desvendar e que nunca soube entender.

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