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Os super-ricos vão ganhando consciência dos riscos provocados pela desigualdade crescente

Heise, Autor: Hans Jürgen Krysmanski

Existe um “Safe Swimmer’s Pledge” em que os iniciantes de natação se comprometem a não entrar na água sozinhos, a não se aproximar de tubos de aspiração e escoamento, a mergulhar sempre com os pés e a respeitar todas as regras da piscina.

E existe ainda um outro “Pledge” mas este nada tem a ver com a água. É um “Giving-Pledge” criado por Bill Gates, Warren Buffett, Michael Bloomberg e mais alguns super-milionários, com o objectivo de animar os indivíduos e famílias mais ricas da América a porem a maior parte das suas fortunas á disposição de fins filantrópicos.

O jornalista americano Robert Frank, antes no Wall Street Journal, é agora responsável pelo tópico super-fortunas na CNBC. Frank é autor do bestseller “Richistan”. No começo do Verão descreveu no New York Times como a vida dos novos super-ricos não é só uma vida de luxo, passada na praia a apanhar sol. Depois do World Economic Forum em Davos, do Lions International Festival of Creativity em Cannes, do Art Basel e mais alguns eventos, começou agora o “Mediterranean Milk Run” (qualquer coisa como um passeio rotineiro) – a procissão estival de mega-iates de Saint-Tropez até Portofino, Capri, etc.

Também os refugiados nos barcos do Mediterrâneo e os seus passadores estão num “Milk Run”. Diferente, não há dúvida. Logo nos primeiros meses de 2015 morreram afogadas milhares de pessoas, 400 num só dia, nas costas da Líbia, e 700 no Estreito da Sicília. Em 2014 morreram mais de 3.000 refugiados e desde o ano 2000 desapareceram no Mediterrâneo 30.000, cálculos por baixo.

E que fazem os super-ricos? Andam às voltas pelo mundo, diz Robert Frank, para se encontrarem sempre com os mesmos. Um circuito fechado. Claro que há muitas festas. Espantosa é a quantidade de negócios realizados por esta via. Do mesmo modo que querem obter lucros dos seus investimentos e das suas filantropias, também o seu tempo livre é uma forma de fazer dinheiro. Mesmo a sua vida social é um negócio. Nos seus encontros durante os tempos livres querem ser vistos, mas só pelos seus congéneres. Ao mesmo tempo, nunca a competição de status entre os super-milionários foi tão agrressiva como agora.

Isso também está patente no mundo dos mega-iates. Os 200 maiores iates do mundo atingem um comprimento médio de quase 84 metros, enquanto os 10 iates de topo atingem os 151 metros. A maior parte dos proprietários são provenientes do Próximo Oriente (40), da Europa (37) e da Rússia (26). O mega-iate “Rising Sun”, de David Geffen, com os seus 138 metros, e o “Serene”, do magnate do vodka Yuri Shefler, estão melhor equipados para o salvamento de refugiados no Mediterrâneo do que as frotas de salvamento italianas, gregas ou alemãs.

O mesmo se pode dizer do super-iate “Eclipse” com um comprimento de 160 metros de Roman Abramowitsch. Custou à volta de 500 milhões de dólares sendo assim o mais caro iate privado de todos os tempos. O seu aspecto exterior é marcial. Consta por aí que tem instalado um sistema militar anti-mísseis. Neste sector é de resto práctica corrente que as tecnologias dos exércitos mais avançados do mundo também estejam à disposição dos proprietários dos super-iates. Além disso podem ainda fazer login nas redes de informação privadas, militares e de serviços secretos sem nenhuma dificuldade.

Pensando bem, um mau sinal para passadores e as suas organizações. Mas os donos dos mega-iates têm mais que fazer, e as instituições locais, nacionais e transnacionais não dão conta do recado. Há que recorrer à iniciativa privada. Um casal de milionários italo-americano, Chris e Regina Catrambone, comprou em 2014, por 4 milhões de dólares, o primeiro barco para o salvamento de refugiados, financiado com fundos privados - um velho barco de pesca, sólido, com 40 metros de comprimento, apetrechado com botes de abordagem e um convés de aterragem para drones, estes dotados de sistemas de visão nocturna e medição de calor. Desde Agosto de 2014 a organização de assistência dos Catrambones já salvou 3000 refugiados.

Paulatinamente, não são só simples milionários, mas também muitos super-milionários do Milk Run, que começam a ficar inquietos. Muitos dos grandes iates até poderiam participar durante um dois meses nestas operações. Intervenções humanitárias deste género até dariam para elevar o status comercial dos proprietários. Entretanto corre já o rumor, confirmado por quem sabe, que perante casos destes alguns dos donos dos super-iates, entre eles um príncipe saudita, andem mesmo a pensar em fundar um novo “pledge”, um “Living Pledge”. A coisa tem pés para andar. Entre os super-ricos há cada vez mais a consciência para os riscos que a desigualdade crescente acarreta consigo. Sabe-se lá, se os deserdados deste mundo não se levantam um dia contra a classe dominante. “That’s the real danger”, ouve-se em Cannes. “The little thing called the French Rrevolution.”

Só que um “Living Pledge” teria de ser pensado de uma forma completamente diferente da declaração de compromissos de Gates e Buffett, que pretende combater a desigualdade através de filantropia, e não através da transformação do sistema económico. Na esteira dos mega-iates e dos barcos de refugiados não só teriam de ser salvas milhares de vidas das ondas, mas também criadas condições duradoiras para serem vividas com dignidade. Uma tal ajuda teria de ter em conta terrenos e zonas urbanizáveis, que são hoje, em grande parte, propriedade privada. Isto seria apenas o ponto de partida para um novo modelo de geopolítica.

Os cinco maiores proprietários privados de terrenos do planeta são a rainha Elisabeth II (26 700 000 quilómetros quadrados, o que corresponde a um sexto da superfície da Terra não coberta de água!), o rei Abdullah da Arábia Saudita (2 237 991 quilómetros quadrados), o rei Bhumibol da Tailândia (500 922 quilómetros quadrados), o rei Mohammed VI de Marrocos (457 311 quilómetros quadrados) e o sultão Qabus ibn Said de Oman (307 572 quilómetros quadrados). O seu iate de luxo “Al Said”, com 155 metros de comprimento, 8000 metros quadrados de superfície e seis convés, poderia transportar na direcção certa até 900 refugiados (sem contar com os 154 membros da tripulação). Só que a direcção não é de modo nenhum a correcta. E um “Living Pledge”, por enquanto, ainda só está escrito nas estrelas.

Em 2012 o proprietário de vários mega-iates, Larry Ellison, aos seus inúmeros domicílios acrescentou-lhe mais um, o “Porcupine Creek” - uma grande propriedade senhorial de cerca de cem hectares com campo de golfe e tudo. Pagou por aquilo 43 milhões de dólares. As pessoas que lá trabalham dizem que ele só passa por lá de vez em quando, para participar em actividades caritativas ou eventos de negócios. Como é possível, interrogam-se, que haja alguém que compre uma casa por 43 milhões e não viva lá?

Na Grécia estão neste momento muitas ilhas à venda. Os preços variam entre os 800 mil e os 150 milhões de euros. O emir de Qatar acaba de comprar uma mão cheia destas ilhas. Prometeu às autoridades que iria instalar três iates no seu reino de ilhas. Anda com ideias de construir lá palácios para as suas três mulheres e 24 filhos. Só para a cozinha precisa de 1000 metros quadrados, diz o emir. De outro modo não pode receber os seus inúmeros hóspedes.

Ekaterina Rybolowlewa, a filha de 25 anos do super-milionário russo e patrocinador desportivo Dimitri Rybolowlew, pode afirmar desde o início do ano passado que a famosa ilha Skorpios lhe pertence. Foi nesta ilha situada no mar Jônico que Aristóteles Onassis casou, há 45 anos, com a antiga primeira-dama Jacqueline Kennedy. Segundo relatos, a ilha mudou de dono por um preço estimado em 126 milhões de euros.

Seja como for, as águas mediterrânicas deixam entrever novas possibilidades. No “Richistão”, a “nação” virtual dos super-ricos, já ninguém fala de um (ou do seu) país no singular. As fronteiras entre países deixaram de fazer sentido. Ao menos neste aspecto super-ricos e refugiados estão do mesmo lado.

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Link para o texto original. Tradução: fiat lux

 

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