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Pequenas alegrias na nora dos dias

por Zzzzz, em 02.09.16

pas1

Por vezes a vida também é isto. Uma recordação onde o futuro mergulha a regenerar-se para novas aventuras. Um pequeno prazer que se manifesta em algo que antes nos passou despercebido. Uma surpresa na descoberta de uma nova dimensão na nora dos dias.

Passeamos na floresta e não vemos a árvore. Vamos de um lado para o outro e ignoramos o movimento. Escrevemos e esquecemos a mão. Exigimos a felicidade no vazio de uma vida interior. Desejamos viver evitando o esforço e o desafio.

Há a vida que nos transporta e a vida que fazemos. Há o que nos apontam como belo e, sem mais, acenamos que sim. Na sugestão da utilidade há apenas a fugacidade da surpresa. Foi-se esta, fica-nos aquela, acabando perdida por aí.

Eu. Ontem fui à floresta, pisei o chão por onde andam as raízes das árvores, abracei uma. Ficou imóvel, silenciosa, cheia de si. Notou-me. Se algo me segredou nada retive. Há uma linguagem de vida profunda nas árvores que nenhuma abraço pode desvendar. Naquela imobilidade, naquele silêncio e naquela plenitude há uma autoridade que sigo cego.

No caminho de regresso em cima da bicicleta senti o vento, o momento, o movimento. Quando os quis abraçar já tinham fugido de mim. Havia neles uma inquietude desconhecida que me pôs de bem comigo. O que me deixaram na passagem fez de mim outro. Sorrio na alegria da mudança, grato por me saber a viver.

Em casa escrevo estas notas primeiro com uma caneta. Os velhos instrumentos sempre souberam arrebatar ao pensamento encantos ocultos. Há uma cumplicidade da mão com o cérebro que só velhas ferramentas sabem desvendar e que nunca soube entender.

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 Os passadiços do Paiva são os mais famosos do país. Há muitos outros passadiços espalhados por aí mas não são tão célebres como os passadiços do Paiva. Estes são especiais. A sua especialidade residirá no facto de ser uma construção de madeira num espaço que pertence à árvore.

A árvore, um elemento natural, é substituida por uma construção feita a partir da sua substância, mas muito mais útil e interessante que ela. Árvores naquele sítio, a cobrir aqueles montes de calhaus agressivos como ossos de éguas escanzeladas, não teriam nem de longe nem de perto o charme dos passadiços. Ninguém vai calcorrear encostas íngremes cobertas de calhaus sem um tapete a isentá-lo das agruras do terreno.

A beleza da natureza sempre esteve na sua distância. Só do alto e da segurança dos passadiços podemos admirá-la como deve ser. Com os pés bem firmes sobre os passadiços não temos o incómodo do contacto com o chão de terra suja e as pedras rudes. Não nos sujamos ou irritamos, e assim é que está bem. 

Acontece que a natureza também está na moda. Gostamos dela porque ouvimos ou lemos algures que lá o ar fresco é a dar com um pau e que faz bem à saúde, uma das nossas grandes preocupações. Mas a natureza só é tragável se estiver bem higienizada e devidamente humanizada. Só uma natureza à medida do humano moderno, elegante e optimizada, terá um grande futuro. Por isso fazemos o que podemos para a poupar, cobrindo-a de passadiços.

A sociedade do futuro será uma sociedade de tempos livres onde o turista será rei. Dá gosto ver o rei, esse ser superior, a entrar pela natureza adentro com os seus objectos e os seus símbolos de marca e a incensá-la com a sua graça, os seus valores, os seus pasmos profundos. Só celebridades destas podem transmitir aos passadiços a aura da sua celebridade. Nunca uma árvore, na sua imensa e bruta banalidade, poderá alguma vez competir com o corrimão de um passadiço. Jamais!

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