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Pequenas alegrias na nora dos dias

por Zzzzz, em 02.09.16

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Por vezes a vida também é isto. Uma recordação onde o futuro mergulha a regenerar-se para novas aventuras. Um pequeno prazer que se manifesta em algo que antes nos passou despercebido. Uma surpresa na descoberta de uma nova dimensão na nora dos dias.

Passeamos na floresta e não vemos a árvore. Vamos de um lado para o outro e ignoramos o movimento. Escrevemos e esquecemos a mão. Exigimos a felicidade no vazio de uma vida interior. Desejamos viver evitando o esforço e o desafio.

Há a vida que nos transporta e a vida que fazemos. Há o que nos apontam como belo e, sem mais, acenamos que sim. Na sugestão da utilidade há apenas a fugacidade da surpresa. Foi-se esta, fica-nos aquela, acabando perdida por aí.

Eu. Ontem fui à floresta, pisei o chão por onde andam as raízes das árvores, abracei uma. Ficou imóvel, silenciosa, cheia de si. Notou-me. Se algo me segredou nada retive. Há uma linguagem de vida profunda nas árvores que nenhuma abraço pode desvendar. Naquela imobilidade, naquele silêncio e naquela plenitude há uma autoridade que sigo cego.

No caminho de regresso em cima da bicicleta senti o vento, o momento, o movimento. Quando os quis abraçar já tinham fugido de mim. Havia neles uma inquietude desconhecida que me pôs de bem comigo. O que me deixaram na passagem fez de mim outro. Sorrio na alegria da mudança, grato por me saber a viver.

Em casa escrevo estas notas primeiro com uma caneta. Os velhos instrumentos sempre souberam arrebatar ao pensamento encantos ocultos. Há uma cumplicidade da mão com o cérebro que só velhas ferramentas sabem desvendar e que nunca soube entender.

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Nós, os modernos

por Zzzzz, em 22.08.16

A nossa relação com a natureza, o campo, as aldeias e as plantas mudou-se muito nas últimas dezenas de anos. Na luta dura pela sobrevivência fomos viver para centros urbanos, emigramos, fugimos da vida anónima nas aldeias. Para trás ficaram cacos e ruínas que recordamos em ondas nostálgicas para puxar lustro à nossa auto-estima. É bom recordar de onde viemos para nos sentirmos bem onde estamos.

As notícias que nos chegam de matas, florestas, incêndios, são notícias de um outro mundo. As plantas de que gostamos estão metidas em vasos, e as flores, sem dúvida muito bonitas, não faltam por aí pelos jardins. A natureza, contra a qual não temos nada, até lhe achamos muita graça, está lá fora, para além dos limites do centro urbano. Nós somos modernos, temos os nossos aparelhos, os nossos hábitos, os nossos símbolos pelos quais comunicamos e dizemos à sociedade o que valemos.

O oxigénio que precisamos para a nossa respiração trá-lo o vento. O dióxido de carbono expelido pelos nossos carros leva-o também o vento. Haja vento e temos muitos problemas resolvidos. A água que bebemos, quando não temos outra bebida, compra-se nos supermercados. A que precisamos para a higiene vem da torneira. Os cereais, carne e legumes que precisamos para a nossa alimentação, não há crise, compram-se no supermercado. A madeira, da qual ainda falam alguns publicitários como um produto natural e que vemos nos passadiços, pode-se importar. No norte da Europa o que mais há é madeira.

Aqui e ali surgem algumas pessoas que falam de matas e florestas, incêndios e bombeiros, os media também embalam na onda, mas basta ter alguma paciência, esperar algum tempo, que isso já lhes passa. A vida moderna é mesmo isso, um ajuste de contas com o passado, a natureza, a agricultura, as florestas. Mais uns anitos e podemos vender os montes, os rios e as florestas a quem der mais. E o dinheiro feito que se invista no progresso das cidades.

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