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 Os passadiços do Paiva são os mais famosos do país. Há muitos outros passadiços espalhados por aí mas não são tão célebres como os passadiços do Paiva. Estes são especiais. A sua especialidade residirá no facto de ser uma construção de madeira num espaço que pertence à árvore.

A árvore, um elemento natural, é substituida por uma construção feita a partir da sua substância, mas muito mais útil e interessante que ela. Árvores naquele sítio, a cobrir aqueles montes de calhaus agressivos como ossos de éguas escanzeladas, não teriam nem de longe nem de perto o charme dos passadiços. Ninguém vai calcorrear encostas íngremes cobertas de calhaus sem um tapete a isentá-lo das agruras do terreno.

A beleza da natureza sempre esteve na sua distância. Só do alto e da segurança dos passadiços podemos admirá-la como deve ser. Com os pés bem firmes sobre os passadiços não temos o incómodo do contacto com o chão de terra suja e as pedras rudes. Não nos sujamos ou irritamos, e assim é que está bem. 

Acontece que a natureza também está na moda. Gostamos dela porque ouvimos ou lemos algures que lá o ar fresco é a dar com um pau e que faz bem à saúde, uma das nossas grandes preocupações. Mas a natureza só é tragável se estiver bem higienizada e devidamente humanizada. Só uma natureza à medida do humano moderno, elegante e optimizada, terá um grande futuro. Por isso fazemos o que podemos para a poupar, cobrindo-a de passadiços.

A sociedade do futuro será uma sociedade de tempos livres onde o turista será rei. Dá gosto ver o rei, esse ser superior, a entrar pela natureza adentro com os seus objectos e os seus símbolos de marca e a incensá-la com a sua graça, os seus valores, os seus pasmos profundos. Só celebridades destas podem transmitir aos passadiços a aura da sua celebridade. Nunca uma árvore, na sua imensa e bruta banalidade, poderá alguma vez competir com o corrimão de um passadiço. Jamais!

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Nós, os modernos

por Zzzzz, em 22.08.16

A nossa relação com a natureza, o campo, as aldeias e as plantas mudou-se muito nas últimas dezenas de anos. Na luta dura pela sobrevivência fomos viver para centros urbanos, emigramos, fugimos da vida anónima nas aldeias. Para trás ficaram cacos e ruínas que recordamos em ondas nostálgicas para puxar lustro à nossa auto-estima. É bom recordar de onde viemos para nos sentirmos bem onde estamos.

As notícias que nos chegam de matas, florestas, incêndios, são notícias de um outro mundo. As plantas de que gostamos estão metidas em vasos, e as flores, sem dúvida muito bonitas, não faltam por aí pelos jardins. A natureza, contra a qual não temos nada, até lhe achamos muita graça, está lá fora, para além dos limites do centro urbano. Nós somos modernos, temos os nossos aparelhos, os nossos hábitos, os nossos símbolos pelos quais comunicamos e dizemos à sociedade o que valemos.

O oxigénio que precisamos para a nossa respiração trá-lo o vento. O dióxido de carbono expelido pelos nossos carros leva-o também o vento. Haja vento e temos muitos problemas resolvidos. A água que bebemos, quando não temos outra bebida, compra-se nos supermercados. A que precisamos para a higiene vem da torneira. Os cereais, carne e legumes que precisamos para a nossa alimentação, não há crise, compram-se no supermercado. A madeira, da qual ainda falam alguns publicitários como um produto natural e que vemos nos passadiços, pode-se importar. No norte da Europa o que mais há é madeira.

Aqui e ali surgem algumas pessoas que falam de matas e florestas, incêndios e bombeiros, os media também embalam na onda, mas basta ter alguma paciência, esperar algum tempo, que isso já lhes passa. A vida moderna é mesmo isso, um ajuste de contas com o passado, a natureza, a agricultura, as florestas. Mais uns anitos e podemos vender os montes, os rios e as florestas a quem der mais. E o dinheiro feito que se invista no progresso das cidades.

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