Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


cria2

Tenho uma sensação esquisita de que o Covid-19 é bom. Os malucos da economia já não aceleram. Bem carregam no pedal do gás mas os negócios não saem do sítio. É bom. Como bom português mas um bocado do avesso, a ver a coisa do outro lado, tenho cá um palpite que é bom. Não se vendem tantas casas como se vendia. Porreiro! Os esfomeados da propriedade têm algum tempo para pensar. Para os bancos a coisa está negra, como nunca deixou de estar, e querem salvar o seu desespero espalhando-o pelos clientes sob a forma de créditos. Rebenta a bolha financeira, uma ameaça já no ar antes do Covid, acabam em muitos casos por ficar com o imóvel, a entrada, as prestações, o diabo a quatro. Um negócio da china e eles sabem o que estavam a fazer às pessoas.

O Covid é bom porque arrefeceu o stress de casino financeiro que tinha tomado conta de toda a sociedade. A voragem de lucro, dinheiro, propriedade, sucessos, méritos, talentos, criatividades, tudo ideias adulteradas, manipuladas, desviadas do seu sentido profundo, transformou muitos membros da sociedade, gente séria e honesta, em verdadeiros zombies. Parar faz bem porque permite reconsiderar, tomar ar fresco, reflectir sobre a vida que se leva e a vida que se deseja.

De um momento para o outro um vírus revela-nos as nossas fraquezas. A força da saúde, da sociedade, da componente social, da educação, da cultura, da civilização, foi desprezada e enfraquecida. O ego, o indíviduo, o privado, a vaidade, a aparência, estavam sobrevalorizados. A agressividade fanfarrona murchou, deixou entrever o medo. É desagradável dizer isto mas tenho a sensação esquisita de que o Covid veio acertar o relógio de muitas vidas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pequenas alegrias na nora dos dias

por Zzzzz, em 02.09.16

pas1

Por vezes a vida também é isto. Uma recordação onde o futuro mergulha a regenerar-se para novas aventuras. Um pequeno prazer que se manifesta em algo que antes nos passou despercebido. Uma surpresa na descoberta de uma nova dimensão na nora dos dias.

Passeamos na floresta e não vemos a árvore. Vamos de um lado para o outro e ignoramos o movimento. Escrevemos e esquecemos a mão. Exigimos a felicidade no vazio de uma vida interior. Desejamos viver evitando o esforço e o desafio.

Há a vida que nos transporta e a vida que fazemos. Há o que nos apontam como belo e, sem mais, acenamos que sim. Na sugestão da utilidade há apenas a fugacidade da surpresa. Foi-se esta, fica-nos aquela, acabando perdida por aí.

Eu. Ontem fui à floresta, pisei o chão por onde andam as raízes das árvores, abracei uma. Ficou imóvel, silenciosa, cheia de si. Notou-me. Se algo me segredou nada retive. Há uma linguagem de vida profunda nas árvores que nenhuma abraço pode desvendar. Naquela imobilidade, naquele silêncio e naquela plenitude há uma autoridade que sigo cego.

No caminho de regresso em cima da bicicleta senti o vento, o momento, o movimento. Quando os quis abraçar já tinham fugido de mim. Havia neles uma inquietude desconhecida que me pôs de bem comigo. O que me deixaram na passagem fez de mim outro. Sorrio na alegria da mudança, grato por me saber a viver.

Em casa escrevo estas notas primeiro com uma caneta. Os velhos instrumentos sempre souberam arrebatar ao pensamento encantos ocultos. Há uma cumplicidade da mão com o cérebro que só velhas ferramentas sabem desvendar e que nunca soube entender.

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D